Terça-feira, Junho 07, 2005
MAIS DE ARTE ESPANHOLA...
Desde que estou vivendo em Madrid, minha paixão pela pintura multiplicou-se.
Se por um lado fazia algumas pesquisas para ajudar minha filha nos estudos da História da Arte Espanhola e por outro frequentava algumas classes desta matéria na UNED como ouvinte, também crescia meu conhecimento quando, a cada visitante que recebia em casa, levava-o a conhecer o Museo del Prado e as principais catedrais das cidades mais próximas. Todas com arcervos artísticos dignos de nota e encantamento.
Claro, não me considero conhecedora de arte. Apenas uma apreciadora mais interessada porque mais informada.
Várias vezes abordei aqui o tema da pintura, postando escritos sobre o Prado, ou o Rainha Sofia, ou ainda o Tyssen, Museu Picasso, Fundação Gala-Dalí e o Museu de Sorolla. Já contei sobre exposições de Manet, Vermmer, el Greco, Velazquez, Tiziano, Murillo...
É uma pena que quase nada disto que já foi publicado permaneça neste blog.
De qualquer forma, eu continuo escrevendo...
Hoje trago mais um mago espanhol, mais um mestre: Juan José de Ribera, mais conhecido como Guiseppe Ribera, Il Espangnoletto.
Apesar de ter nascido na região valenciana, na Espanha, o pintor passou quase toda a sua vida na Itália e morreu sem jamais ter voltado a ver sua pátria.(Dir.La Vista)
É verdade que naquela época Nápoles estava sob domínio espanhol e a obra de Ribera gozava de grande apreço e admiração pelas autoridades eclesiásticas e políticas napolitanas do século XVII, pricipalmente depois de seu casamento com a filha de um pintor conhecido da região, Gian Bernardo Azzolino.
Mas o fato é que acabou sendo estrangeiro nos dois países. Na Itália era considerado um pintor alheio à tradição e gosto italiano, portador de uma certa "brutalidade ibérica" por seu estilo naturalista, pintando os santos em seus martírios com uma dose exagerada de realismo.(Esq. El Tacto)
A Espanha , apesar de contar com muitas obras suas, pois boa parte de sua clientela era espanhola, dizem os historiadores que o mais substancial de sua produção não se encontrava aqui, de forma que ele foi visto e estudado parcialmente e sem grande profundidade.(Dir.El Olfato)
Só nos últimos 30 anos essa injustiça foi corrigida e historiadores de ambos países se uniram para estudar e publicar seus conhecimentos sobre o pintor.
Sorte nossa. Em um dos volumes da coleção que estamos fazendo pelo El Mundo, Ribera é considerado gênio da pintura universal. E ele merece.
Suas telas com motivos religiosos é profusa. Claro, estamos falando do Século XVII. E nenhum grande pintor podia escapar dessa sina: trabalhar para os conventos, igrejas e palácios episcopais.
Por minha parte, se tenho que escolher algumas das suas obras para publicar aqui, não poderia deixar de fora as minhas prediletas. A série dos Cinco Sentidos, dos quais apenas El Oído não está aqui.(Esq.El Gusto)
São espetaculares!
E a mais curiosa de sua pinturas é a Mulher Barbuda, feita por encomenda para o terceiro Duque de Alcalá, governante de Nápoles.
Vou transcrever aqui o comentário feito pelo embaixador de Veneza em visita ao estúdio do pintor em fevereiro de 1631. " Na sala do virrey estava um pintor famosíssimo fazendo um retrato de uma mulher de Abruzzos casada e mãe e muitos filhos, a qual tem o rosto totalmente viril, com mais de um palmo de barba negra e belíssima e o peito todo peludo¸ teve sua excelência muito gosto em vê-la, como coisa maravilhosa, e em verdade que o é."
Este é um dos quadros mais insólitos da pintura européia do século XVII.
Quando o vi no Prado, em uma exposição no ano passado, passei uma eternidade diante dele. Impressionada com a pintura e mais ainda com o caso, que está descrito na própria tela pelo pintor.
Se quiserem vê-la, hoje em dia a obra está em Toledo, no Palácio Lerma Fundação Casa Ducal de Medinacelli.
A história é a seguinte: Maddalena Ventura era uma mulher de aparência normal, casada e mãe. Com 37 anos, "por um grande milagre da natureza" havia crescido nela uma larga barba. Quando chegou em Nápoles com 52 anos, vinda de Abruzzos, sua aparência chamou a atenção da comunidade médica.
Ribera pintou, com o caracter documental de um caso clínico, a Maddalena com um de seus filhos nos braços e o marido a sua direita.
Sobre um bloco de pedra, Ribera pintou um fuso e fios de lã, como símbolo do paradoxo da natureza feminina da mulher que contrasta com seu aspecto masculino.
Apesar da finalidade documental, o artista conseguiu traduzir o drama psicológico desta mulher transformada em homem e a resignação de seu marido.
Bueno... há obras espetaculares de Ribera espalhados pelo mundo. Muitos na Espanha, onde também foi profusamente copiado pelos artistas contemporâneos e posteriores à sua época de glória, mas também em França, EUA, Rússia, México, Hungria, e naturalmente, na Itália.
Meu livrinho aqui, ao preço de um bocadillo, traz as melhores delas para o aconchego da minha sala de estar...
E para aproveitar ao máximo o momento, um café na caneca azul... e a música barroca italiana para orquestra e oboé.
Lá fora há trovões e relâmpagos prometendo tempestade...
Ps: Para ver mais de Ribera clique aqui
posted by Nora Borges 3:35 PM
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As impressões de uma brasileira que vive desde 2002 no lindo país de Cervantes...
Este blog pretende ser apenas uma mirada singular sobre sua cultura, arte e gente, sua história e sua beleza.
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